domingo, 13 de março de 2011

[+18] Ero-Guro: O erótico-grotesco de Suehiro Maruo

Antes de qualquer coisa, tenho que dizer, que não entendo nada sobre parafilias ou ero-guro (além do básico, que todo mundo deve conhecer xD). Mas eu também sou uma garota curiosa e após ler uma matéria hentai e vários tipos de fetiches - muito bem feita pela Allena, para o site Jbox - acabei comprando escondida, o único exemplar que encontrei, que abordava sobre o assunto: Ero-Guro: o erótico-grotesco, do autor Suehiro Maruo.

Ero-Guro é uma obra pra poucos. E com isto, eu não quero dizer que ela se restringe á pessoas que curtem parafilias ou guro (que é importante salientar, que é bem diferente do gore, que vai mais pro lado do sangue e tripas, não envolvendo ato sexual.), mas que se trata de uma obra nada convencional, que tem uma pegada visual muito forte e que poderia fazer qualquer pessoa que não esteja habituada com esse “mundinho” sentir ânsia de vômitos.


Ero Guro vem do inglês, Erotique Grotesque e nasceu originalmente como um movimento artístico no Japão – e que estava ligado intimamente com a música e a arte, como forma de arte – e logo se tornou também um estilo, onde se explora o sexo da forma mais grotesca possível. Aqui também se encontra o masoquismo e o sadismo, da forma mais violenta do aqueles simples tapinhas na hora do amor. 

Em Ero-Guro, Suehiro apresenta 9 histórias distintas, em forma de contos. As cenas são insanas, imorais e que fariam qualquer pessoa normal, achar que você por ler esse tipo de história, deve sofrer de algum distúrbio psicológico. Na primeira história, intitulada “Noite podre”, o marido sente prazer praticando sexo selvagem com sua jovem esposa, além de se excitar, com pequenos cortes que faz no corpo dela. Juntamente com seu amante, a jovem que já não suporta mais o marido e decide que ele deve morrer. Mas tudo sai errado e o marido decepa ambos os braços do amante e de sua infiel esposa, além de perfurar-lhes os olhos com requintes de crueldade. Ele ainda faz sexo com a esposa totalmente desfigurada e logo apôs, quando pela fresta do lugar onde jogou os dois, observa os amantes se rastejando pelo chão e transando com os corpos naquele estado, e começa a se masturbar.

Como podem ver, as histórias são bem simples tecnicamente (com exceção da ultima história, que pretendo comentar mais adiante) e o impacto maior, se da na forma visual como ela se desenvolve. A ação começa sempre com bastante atrocidades da parte dos personagens, se intensificando na metade e gerando um final trágico ou reticente.



O conteúdo deste mangá, é completamente obsceno, com histórias erotizadas e elevadas ao extremo do grotesco. Sodomia, coprofilia, incesto, canibalismo, pedofilia, zoofilia, voyerismo e flagelação são os temos presentes nas histórias presentes nesse mangá. Devo dizer que fiquei chocada com a história “Receita para uma sopa de merda”, onde mostra um grupo de jovens, envolvidos em perveções escatológicas. Eles fazem sexo grupal, cozinham e comem as próprias merdas (@.@), a garota se diverte com os garotos urinando sobre ela (Chuva dourada - Também é um fetiche), mas claro, estou apenas citando superficialmente toda a orgia contida nesse capitulo. Mas nada é tão inquietante e perturbador (sério), como a história “O garota da Latrina”. Basicamente é sobre um bebe, que é jogado pela própria mão em um esgoto e de alguma forma, o garoto acaba crescendo naquele ambiente putrefato, em meio as merdas. As mulheres que ocasionalmente, entram nas latrinas (que é um banheiro construído sobre um fossa ou algo do tipo, com um buraco, onde se faz as necessidades. Quando eu era pirralha, no sítio do meu avô, tinha uma. Morria de medo de cair ali @.@) eram assombradas e aliciadas por ele. Quando iam fazer suas necessidades, ele aparecia para beber seus xixis ou comer suas fezes. Mas ele não se contentava com apenas isso e as puxava.



O que salva Ero-Guro de ser apenas um fanservice para pervertidos, é que realmente há um QUÊ profundidade, que impossibilita a obra de ser catalogada como um mero hentai (termo que pra nós, tem uma conotação diferente do que para os Japoneses). Seja por conter passagens reflexivas, referências filosóficas, a subjetividade do roteiro que é reforçado com um estilo de arte que no mínimo, é bem peculiar. O traço de Suehiro é bem artístico, não tem a beleza com a qual estamos acostumados, mas tem uma beleza exótica, que casa perfeitamente com as histórias.



Suehiro Maruo se influenciou em grandes obras para desenvolver suas histórias, como em “Receita para um sopa de merda”, que é inspirado na “história do Olho”, obra escrita por Bataille. Ambas as histórias, retratam adolescentes gozando com olhos arrancados de animais. Brincar com as infinitas possibilidades que o corpo oferece, é o tema central da história, onde a garota chega a colocar o olho arrancado, dentro de sua vagina, para que os rapazes pudessem puxá-lo com a boca. É muito bizarro para quem esta vendo de fora, mas há toda uma filosofia citada por Bataille em sua obra: “Para chegar ao fundo do êxtase em cujo gozo nos perdemos, devemos sempre identificar seu limite imediato: o horror”.



Na maioria das história, é possível identificar um personagem usando tapa olhos e isso me gerou uma enorme curiosidade, que logo foi sanada. É uma referência clara ao mito Édipo de Sófocles, que arrancou os próprios olhos. Esta seria sua punição, por ter se unido a mãe. Freud que interpretou esse mito, associando-o a perda da visão, como sendo um castigo á criança que olhou escondido seus pais fazendo sexo. Com isso, simbolicamente Suehiro quis quebrar um tabu, ao mostrar os jovens gozando com os olhos e suas línguas penetrando as pupilas, quebrando ai o tabu do incesto imposto pela sociedade. Há varias outras influências e que se torna uma brincadeira interessante ao buscar referências para todo o simbolismo que Suehiro implantou em sua arte e roteiro, mas que não vou citar aqui, pois além de ficar muito “viajado”, seria preciso dividir o post em 2 partes.



Mas não posso deixar de citar as paginas repletas de antítese, reforçando toda a filosofia imposta por Suehiro em Ero-Guro, onde lindas paisagens estão repletas de insetos nojentos, que destoam do visual e passeiam pelas peles branquinhas das meninas japonesas.



O desenhos fazem frente ao simples roteiro. Cada quadro desenhado é uma grotesca obra de arte. Ao desenhar seus personagens, Suehiro abrir mão de fazer detalhadamente de forma que pudesse gerar um prazer em quem olha, os genitais de seus personagens. Não sei se isso é certo, mas talvez porque o que excita o publico “alvo” não seja posições sexuais e sim os atos. Em vários momentos, ele utiliza o preto e o branco como um divisor entre inocência (branco) e perveção (preto), deixando os homens na cor preta (este, os verdadeiros pervertidos) e as mulheres na cor branca (estas que, são obrigadas a ceder aos desejos insanos de seus maridos).



Porém, o melhor de Ero-Guro, está numa história que não é tão pesada e nem repleta de parafilias. “A cidade que sucumbe” tem o roteiro mais elaborado e bem desenvolvido, além de ocupar praticamente metade do mangá.

O cenário é o Japão pós-Segunda Guerra Mundial. Acontece exatamente em Tóquio, no ano de 1946. A introdução na primeira capa do capítulo é a seguinte: “No mesmo versão em que foi preso K – O cínico maníaco sexual que aterrorizou as mulheres da cidade de Tóquio com uma série de crimes de estupro e morte – O destino armou o estranho encontro de um homem e uma mulher.



A trama gira em torno de um anão sádico e uma mulher com seu pequeno filho, que vive na mais completa pobreza, desde que seu marido partiu para lutar na guerra. O anão se aproxima da bela mulher e lhe oferece um pouco de comida, ela nega mas ele continua com suas investidas, a fim de conquistar a confiança da pobre coitada.



Ela se mostra bem esperta e não cai nas investidas do anão, sabendo exatamente o que ele quer. Mas inevitavelmente acontece uma aproximação entre os dois, quando ela aceita trabalhar para ele, vendo churrasquinhos. O dilema da mulher que resiste as investidas do anão e toda a pobreza envolvendo aqueles personagens é brilhantemente retratado por Suehiro e seu traço consistente e realístico. Pessoas vivendo na mais completa miséria de um Japão decadente (e que faz um contraste incrível com as obras mainstream, que mostram um Japão bonito e rico, com cenários exuberantes) é neste cenário que a mulher precisa sobreviver com seu pequeno filho. Chega a ser impressionante a maneira como ela se agarra, a aparente ilusão de que seu marido irá voltar e tudo ficará bem. Como ela se agarra as lembranças do marido, é normal pensar que o marido foi morto na guerra ou simplesmente, já não dá a mínima para a esposa e filho que deixou pra trás.




Os personagens são muito bem desenvolvidos e se despem do caricato, se tornando incrivelmente críveis. A certa altura da história, acontece uma reviravolta que mexe com toda a trama, seguida de um desfecho já não tão surpreendente – devido ao rumo que a trama tomou – mas que ainda assim impressiona e deixa aquela sensação de vazio, afinal, quem ler essa história, dificilmente vai deixar de sentir uma certa afeição pela mulher que demonstra muita garra e sagacidade, diante as adversidades e o anão que aparenta ser uma boa pessoa, mas que tem um semblante que denuncia não ser flor que se cheire.



A única critica que faço, é o fato da Conrad ter mantido todos os diálogos dos americanos na história em inglês, sem ao menos deixar uma notinha no rodapé ou posfácio  com as traduções. Isso com toda certeza, prejudica um pouco as pessoas que não entendem o idioma.

A edição da Conrad está simplesmente IMPECAVEL, com uma capa insinuante, onde se nota claramente as mãos de uma garota, sobre a vagina e no interior do seu orgão genital, um olho. Na contracapa, duas mulheres se beijando (ou pelo menos, assim me pareceu), com algo que simboliza o esperma, sobre seus lábios e cor que sobressai na capa e contra-capa é o preto, simbolizando a perversão.




Ero-Guro ainda possui uma sobrecapa linda – e que esconde todo o conteúdo da capa do mangá, como deve ser – e a arte é realmente encantadora. No prefácio temos reportagens que dá uma boa introdução e preparam o leitor para o que esta por vir. Há uma pequena matéria no interior do mangá, com comentários de um jornalista que entrevistou Suehiro Maruo e revelando detalhes da vida intima do autor. Nas abas das sobrecapas, também há comentários que revelam a origem de Suehiro. As paginas são brancas e de papel Offset, o tamanho é 16 x 23 cm e contém 224 páginas. Pra completar, a tradução ficou a cargo da Drik Sada e está excelente, como sempre. É realmente uma pena a Conrad ter passado por todos aqueles problemas e nos deixado na mão.

Se eu indico Ero-Guro pra alguém? Não. Mas se você é curioso e gosta de estar por dentro de todos os temas, pode ser uma experiência interessante. Este mangá que mais parece um livro, é praticamente um obra de arte (grotesca e perturbadora na verdade) e é uma excelente alternativa pra quem procura algo completamente diferente. O conhecimento liberta e você gostando ou não de determinado tema, não te impede de aprender mais sobre ele. No mais, essa foi uma ótima aquisição pra minha coleção de mangás.

Ps.: Desculpem a ausência de fotos decentes do mangá, mas minha câmera foi roubada na escola, estou aceitada doações. D:

Ps²: Na capa do livro, um alerta: "quadrinhos-adultos, obra indicada para maiores de 18 anos". Eu acrescentaria: abra somente se tiver coragem e estômago. Eu gostei, muito ousado. Suehiro é um verdadeiro artista plástico, se duvida, aguarde. 

8 comentários :

Anônimo disse...

Cara ta explicado pq vc comprou nas escondidas, kkkkkkkkkkkkkkk!
e bem cabulozo
by: ana bia

APepper disse...

Muito boa a materia, o interessante foi que você não se ateve a apenas apresentar a obra como ela é, mas postou também comentários sobre as suas pesquisas sobre os diversos temas e inspirações que a obra traz. Além de uma apresentação, foi um aprendizado. Primeira vez que posto aqui :P
Queria ver o que você acha dá obra O Vampiro, dele também.
Queria acrescentar que essas obras fascinam por criar uma sensação de se adentrar em um ambiente proibido, com tabus, mistérios e imoralidade, algo que faz dessas obras um objeto que vitima a nossa curiosidade e nosso lado obscuro, e elas acabam se tornando um segredo, algo intimo e assim um culposo prazer.

Jones disse...

Pois é, e eu achava que só eu corria atrás de coisas novas, rs. Espero não ser mau interpretado, mas vamos lá, vou tentar explicar meu ponto de vista com exemplos.
Sabe quando vc escolhe o estilo de musica que prefere e só escuta bandas daquele estilo, claro que vc gosta muito daquilo, mas acaba no fundo enjoando e acaba por procurar mais estilos e bandas diferentes, acontece o mesmo com filmes. Eu amava filmes hollywoodianos e seções da tarde quando era pequeno, mas eu via que aquilo não me envolvia e não me chamava atenção na forma artística. Então acabei notando que queria algo mais, foi ai que conheci Zé do Caixão e seus filmes B, Trashzera como falamos por aqui, foi o estopim pra me envolver com a busca por todos os estilos de filmes que eu possa imaginar. Isso aconteceu comigo não só com a musica e filmes, mas tbm com animes e mangas. E acho que essa busca que fazemos por mais e mais coisas obscuras que possam matar nossa ansiedade curiosa e nos surpreender e finalmente nos tirar da mesmice que canais e cultura pop nos impõe, promovem o complemento do nosso caráter como seres humanos e abrimos olhos pra realidade que é muitas vezes ocultada de nossas vidas. Assim podemos definir melhor nossa personalidade quando nos expomos a coisas novas. Por isso digo ALELUIA por ter a internet em minha vida. rs

Acho que sai totalmente fora do assunto, mas o que quis dizer com toda essa ladainha é que eu já li tudo que é tipo de manga desde smut ao gore-extreme e mesmo assim sempre tem uma obra que ainda não li, como a do autor Suehiro Maruo, mas graças a nossa Carol mais um manga pra lista. Mas estou é realmente impressionado que vc tenha a mente tão aberta, isso é bom assim mais obras interessantes podem aparecer pra gente e me poupa um pouco das minhas infinitas buscas. Rs

Ps1: concordo completamente com o Appeper ali em cima.

Ps2: Tenho q parar de usar dorgas urgente 0.O

Bjocas Carol

Jhon Almeida disse...

Wow, que post super interessante hein dona moça, faço minhas as palavras do APepper. \o/ ,o, \o/ ,o,

Belíssimo trabalho de pesquisa e complemento do que vc veio nos apresentar, e ótima apresentação da obra com comentários tão profundos que atiçou até o mais puritano a querer conferir esse mangá. Realmente esse post é de alguém que que teve a obra em mãos e se deu ao trabalho de compartilhar brilhantemente conosco, valeu pela NÃO indicação Beta, (ironia com o último parágrafo do post rsrs) assim como vc vou tá conferindo depois e adicionado a minha coleção.

ps: Esse vc vai ter que esconder em um local muito mais secreto do que o da Kirino né, já pensou se teu velho pega... KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK /zuando

Anacronismo disse...

Não faz meu estilo. Mas você disse algo muito certo, eu não preciso gostar de estupro ou pedofilia pra me interessar sobre o tema. Acho que você é como eu, também tenho uma incrível necessidade de SABER, de ter conhecimento. Esse tema, ero guro me desperta muita curiosidade como qualquer outro tipo de parafilia. Infelizmente, por vivermos num pais hipócrita, pra termos conhecimentos e estudarmos o comportamento de pessoas que curtem isso (sem preconceito) é difícil. Eu condeno esse tipo de ato, mas acho que falar abertamente sobre o tema, não há mal algum. Isso gera um ótimo tema, vocês consideram normais pessoas que praticam tal ato? É um assunto a ser debatido.

Jhon Almeida disse...

Wow, que post super interessante hein dona moça, faço minhas as palavras do APepper. \o/ ,o, \o/ ,o,

Belíssimo trabalho de pesquisa e complemento do que vc veio nos apresentar, e ótima apresentação da obra com comentários tão profundos que atiçou até o mais puritano a querer conferir esse mangá. Realmente esse post é de alguém que que teve a obra em mãos e se deu ao trabalho de compartilhar brilhantemente conosco, valeu pela NÃO indicação Beta, (ironia com o último parágrafo do post rsrs) assim como vc vou tá conferindo depois e adicionado a minha coleção.

ps: Esse vc vai ter que esconder em um local muito mais secreto do que o da Kirino né, já pensou se teu velho pega... KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK /zuando

APepper disse...

Muito boa a materia, o interessante foi que você não se ateve a apenas apresentar a obra como ela é, mas postou também comentários sobre as suas pesquisas sobre os diversos temas e inspirações que a obra traz. Além de uma apresentação, foi um aprendizado. Primeira vez que posto aqui :P
Queria ver o que você acha dá obra O Vampiro, dele também.
Queria acrescentar que essas obras fascinam por criar uma sensação de se adentrar em um ambiente proibido, com tabus, mistérios e imoralidade, algo que faz dessas obras um objeto que vitima a nossa curiosidade e nosso lado obscuro, e elas acabam se tornando um segredo, algo intimo e assim um culposo prazer.

junior disse...

eu comi anbuirguer antes de ler e nao,vou legal o resultado nao

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