domingo, 8 de maio de 2011

[+18] Midori: Shoujo Tsubaki - Uma voltinha no circo ero-guro

Falar sobre séries perturbadoras aqui  é um dos meus hobbies preferidos e hoje falarei sobre uma que descobri á um tempinho atrás ao ler sobre a biografia de Suehiro Maruo. Estou falando de Chika Gento Gekiga: Shojo Tsubaki ou simplesmente, Midori: Shoujo Tsubaki. Sinceramente eu não esperava nada desse filme, primeiro por ser tratar de um anime ero-guro e por ter visto antes os minutos iniciais, imaginava que seria apenas um festival nonsense de carnificina aleatória. Mas não, o enredo é interessante, segue uma linha narrativa instigante e apesar de ainda ser bastante forte (principalmente para o publico que não esta acostumado), o filme evita mostrar cenas desconfortáveis, que ficaria muito mais chocante numa cena animada o que em um mangá ilustrado por Suehiro.

A trama

O filme é baseado na versão homônima Shoujo Tsubaki, mangá escrito e ilustrado por Suehiro Maruo. Ambas as versões nos apresenta a história de uma garotinha – na faixa de 10/12 anos – chamada Midori. Ela, depois de perder sua mãe, se junta a um circo que ta mais pra um circo de horrores e aberrações. Lá ela é assediada, abusada física e sexualmente por todos.


Midori vivia com sua mãe, ambas eram bem pobres e a garota vendia flores na rua para poder ajudar nas despesas. A história se passa no inicio do século 20 e retrata de uma forma bem crível uma pequena família constituída de mãe e filha, vivendo numa situação de extrema pobreza. A vida de Midori muda drasticamente quando, um belo dia, ela vai conversar com sua mãe – que já fazia um tempo que estava de cama, adoentada – e descobre que a mesma está morta. E pior, pelo estado de putrefação que o corpo se encontrava, aparentava estar morta ha bastante tempo, com ratazanas enormes devorando partes do seu corpo. Midori sai desesperada de casa, agora ela não tem mais ninguém na vida. É quando ela se encontra com um bondoso velhinho, que lhe diz que a cidade não era um lugar adequado para um mocinha como ela viver e lhe dá um bilhete, com o endereço de um local onde ela poderia ficar (que velho desgraçado!).


Das duas uma, ou esse velho era um sádico filho da puta ou foi ingênuo o suficiente ao mandar uma garotinha inocente como Midori para um local completamente desconhecido e bizarro como aquele circo. Sim, porque qualquer um que presencia ao menos um espetáculo daquele local, saberia que aquela gente não é normal.


Pois bem, Midori vai para o Circo e passa a conviver com todos. Lá ela presencia coisas que uma criança não deveria presenciar, como por exemplo, uma mulher e dois homens praticando todo tipo de perversão. Vivendo naquela local, inevitavelmente ela acaba deixando toda sua inocência de lado, assim como sua virgindade. Esta que lhe é tirada a força, mas felizmente o choque é apenas na ideia do que aconteceu, no sentido que fica implícito no roteiro. Não há uma exploração visual desse fato e fiquei bem contente, pois é extremamente desnecessário, só de deixar implícito que tal ato aconteceu, já é chocante o suficiente.

Não bastasse ser aliciada e estuprada, Midori ainda é humilhada de todas as formas possíveis, além de ser tratada como uma escrava.


Desenvolvimento

O melhor de tudo, é que mesmo estando rodeada por pessoas repugnantes e vivendo num ambiente hostil, Midori continua sendo uma criança pura, que mesmo não tendo a inocência de antes, ela ainda se mantém como uma delicada flor que se nega a sucumbir à terra seca. Quando imaginava eu que Midori iria ser ainda mais molestada e o filme viraria uma tragédia de horror guro, as coisas mudam radicalmente na vida da garota com a entrada na história de um anão ilusionista. Mas ainda me mantive com um pé atrás, afinal, estamos falando de um filme baseado em uma obra de Suehiro Maruo e quem já teve a oportunidade de ler ao menos uma de suas histórias, sabe que tudo tende a tragédia.

A garota que passava o tempo, olhando trens que partiam distante e sonhando com uma vida melhor, em poder fugir daquele local e retornar a sua casa, encontrou no anão alguém em que pudesse confiar. O nome deste anão é Wonder Masamitsu e sua personalidade é totalmente ambígua, mas os sentimentos que demonstra por Midori, inicialmente parecem ser verdadeiros, sendo ele capaz até de matar por causa da garota. Vou parar por aqui, pois já contei metade da história e o que segue, é o desenvolvimento da mesma, que acontece de uma forma excelente.


Curiosidades

Shoujo Tsubaki é um filme independente, exibido no tradicional evento “The Tokyo International Fantastic Film Festival”. O filme foi inteiramente produzido pelo diretor Hiroshi Harada, que sozinho dirigiu e escreveu o roteiro. Como obviamente isto não é algo que encontraria financiadores para levar o projeto para o cenário mainstream, ele fez o filme praticamente sozinho e isso levou cinco anos e exibido em circuito fechado. O filme foi feito praticamente de forma artesanal, onde Hiroshi Harada emulou uma técnica chamada "kami-shibai", que se consiste numa narrativa tradicional japonesa, onde uma pessoa conta uma história através de vários quadros com desenhos feitos a mão. E esse é um dos motivos da animação de Shoujo Tsubaki ser extremamente pobre e, dado o tema espinhoso, que condenou o filme a obscuridade, fica até complicado de fazer uma critica raivosa nesse sentido. Mas esteticamente, é um filme que tem seu valor visual. 


Oh sim, esse filme foi extremamente proibido de ser exibido no Japão e até pouco tempo era quase que desconhecido, se tornando uma raridade. Se podemos assisti-lo agora, é pelo fato dele ter sido lançado em DVD na Europa, lá em 2006. Hiroshi Harada realmente foi bem ousado. Ele bateu nas portas de muita gente procurando patrocínio, mas néh...! Quem iria patrocinar ou investir seu dinheiro numa obra dessas? Não deve ser muito vantajosa ver sua marca/nome estampada numa obra tão polêmica. A única coisa que ele poderia ter feito nesse sentido, é pegar suas economias e investir pesado no seu sonho, tal qual fez Hideaki Anno - só que Harada não obteve o mesmo êxito comercial, rs. 


Mas ainda assim ele conseguiu o apoio de algumas pessoas, como os artistas teatrais da época e o filme acabou se tornando um símbolo da sub-cultura dos anos 80. Ele ainda receberia o apoio de JA César (figurinha do teatro underground)  na construção da trilha sonora, que apesar de ter se mostrada limitada, foi bem presente durante todo o filme. Ele começou a trabalhá-la em 1987, fazendo tudo sozinho em casa, deixando somente o acabamento final para fazer no estúdio. E isto se deu cinco anos depois, onde Midori, uma triste história de uma menina feita de escrava em um Ciro freak viu a “luz do dia”, em 1992.


A forma como o filme estreou, parece ter sido interessante. Harada se mostrou um diretor bem criativo ao dar à exibição do seu filme, ares teatrais. Com tendas exibindo musicas e peças teatrais, tal como no filme e este se tornou o evento principal. Na hora da exibição, máquinas de fumaça teriam enchido a sala com uma névoa estranha e assopraram para o publico pétalas de flor de cerejeira pelo ar. Ainda para se chegar na sala onde o filme estava sendo projetado, as pessoas que tinham comprado bilhetes, recebiam um mapa e teriam que passar por uma serie de labirintos até chegar ao local de exibição. Uma experiência única. 


Sim, deve ter sido uma experiência única o que essas pessoas vivenciaram. Foram assistir um filme e presenciaram uma épica peça teatral. Dizem também que na época Harada havia proibido o simples lançamento do filme, pois tinha toda uma ideologia que envolvia algo mais além do que assistir. Para ele, Midori deveria se apreciado apenas em ocasiões especiais. Mas pode ter sido somente uma birra, não é!? Por todo o conteúdo que o filme trás, nunca seria permitido sua exibição normal, sem cortes em locais públicos - teria sido improvável sua exibição sem que retalhassem todo conteúdo em um hipotético lançamento em cinemas, o que torna a tarefa impossível, afinal, o que restaria de um filme como esse com tantos cortes? Apenas um curta-metragem. Tanto é que até hoje, o filme não foi lançado por lá.

Essas curiosidades, você pode ler na integra no excelente artigo do site http://www.pelleas.net



Crítica

Não me parece que o filme de Midori, tenha sido feito apenas para fãs de ero-guro, mas sim que Harada tenha tomado certos cuidados ao adaptar a obra original de Suehiro Maruo. Infelizmente ainda não conheço o original, mas apostaria que é bem mais hardcore que no filme. Eu, sinceramente não fiquei tão chocada, mas imagino que possa ser perturbador pra certas pessoas. No filme há a presença de sexo explicito, algumas poucas parafilias, uma enorme quantidade de cenas grotescas como também a representação visual de uma criança completamente nua e exposta, além de forte linguagem discriminatória. Isso são motivos suficientemente compreensíveis para que veiculação publica seja proibida até hoje no Japão.


Os acontecimentos são terríveis e a narrativa se da de forma bem ágil. É difícil saber o que esta por vir, apesar que depois de assisti-lo, tudo parecer meio óbvio para quem conhece bem o gênero horror/guro/trash. A história para ganhar esse ritmo é contada de forma fragmentada, evitando representações de fatos que realmente não fazem sentir sua falta no filme, sendo apenas sugerido visualmente, como as partes em que Midori é abusada sexualmente, entre outras coisas. O fato de se ter a representação de uma criança molestada, ter essa história contada, para mim não é motivo de demérito, desde que se tenha uma preocupação em contar uma história e que isso não se torne apenas fan-service fetichista.


Em Shoujo Tsubaki há a mínima preocupação de Harada em contar uma história. O enredo apresenta através de fortes imagens visuais uma interessante história de fundo, embora a forma da linguagem visual seja a mais chamativa aqui, embora seja o conteúdo que coloca mais impacto no aspecto estético. 


Há também a história da protagonista, que continua a tentar seguir em frente e é um drama bem válido e curioso se você vê-lo pelo lado crítico. Pois a tragédia de Midori, ainda hoje, é bem fácil de encontrar garotas que são levadas pelo mesmo caminho. Não concordo com algumas críticas que o filme recebeu, tendo em vista a forma como foi concebido. Se trata de uma boa história. Está longe de ser uma obra prima, pois mesmo dentro do cenário ero-guro existem histórias melhores e mais elaboradas, mas também esta bem longe de ser um lixo cinematografico. O filme nos trás uma história simples e contundente da pobre garota e seu melodrama. 




A trilha sonora composta por J.A. Seazer (Shoujo Kakumei Utena) não é um "primor", mas faz bem seu papel no contexto do filme, fazendo uma boa interação entre imagens e roteiro. A direção de arte é de Katsufumi Hariu (Sakura, Macross Plus), que emulou bem a arte de Suehiro Maruo, ainda que meio inconstante. Ele utiliza bastante cores alegres quando é pra representar um ambiente mais feliz, o que nos faz lembrar bastante os animes shoujos. E o torna mais escuro, com a arte mais detalhada nos ambientes hostis. O cenário é bem pobre e reflete a animação limitada. Há cenas em que os personagens falam, mas a boca continua sem se mexer. Ainda hoje acontece bastante, mas no filme não tomaram algumas providências para deixar isso o menos visível possível. As imagens são estáticas em vários momentos, fazendo com que se pareça um filme animados dos anos 60/70. Mas já sabemos a forma como o filme foi produzido.


Resumidamente

Eu vi alguém fazendo uma comparação desse filme com Millennium Actress, de Satoshi Kon, e achei bem interessante e pertinente. Millennium Actress nos leva em uma "viagem" através da vida de uma garota lutando para realizar seus sonhos no inicio do seculo 20. Os eventos apresentados ao longo de 90 minutos nos levam a um único pensamento expresso por um personagem já no clímax. O mesmo pode ser dito de Shoujo Tsubaki em seus 50 minutos, que inclui temas recorrentes em muitos animes com uma linguagem mais adulta com a intenção de provocar algo a mais no expectador. Talvez por Midori fazer parte de um filme segregado a uma sub-cultura que é vista - com uma certa razão - de forma meio torta por muitos, leve a muitos não olhar de forma mais crítica o drama da garotinha, mas a mensagem está ali. O final, bem, muitos poderão "xiar", mas foi como deveria ser. De certa forma, até muito ambíguo.







Diretor: Hiroshi Harada
Trilha Sonora: J. A. Seazer
Obra original: Suehiro Maruo
Direção de arte: Katsufumi Hariu
Direção de fotografia: Nobuyuki Sugaya
Produção: Hiroshi Harada
Animação: Hiroshi Harada
Edição: Toshiharu Ogata
Duração: 48 minutos
Ano: 1992
Estúdio: --
Tipo: Filme
Gênero: Drama / Horror / Guro

18 comentários :

Dejitaru_Dan disse...

Vendo o trailer e as imagens, certas vezes parecem ter sido feitas nos anos 60 e outras chegam a ser parecidas com ilustrações japonesas antigas, mas com uma forma mais peversa e underground.
Parece ser uma animação ao avesso das animações da época e atuais.

Carlírio Neto disse...

Saudações


Se por um acaso eu não conseguir dormir, a culpa será desta sua postagem, ok?

Brincadeiras à parte, este texto tem a sua marca registrada, Roberta.

Particularmente, eu não iria conseguir assistir a tal obra. Mas estarei mentindo se não escrever que a leitura desta postagem não atiçou uma certa curiosidade em mim...

Mas a imagem das ratazanas... Mundo cruel...

Parabéns por mais um ótimo texto.

Até mais!

jonhmaster disse...

Bom texto, você consegui passar uma boa profundidade do que a pessoa vai encarar quando for assistir a esta obra.

Achei forte as cenas não é algo que eu goste de ver por ver. bem mas se eu achar algum dia na internet eu vou dar alguma chance para ver e não me importo se estiver com legenda em inglês.

- biiαhђ« disse...

não to achando =/
favor ajuda; rs

Roberta Caroline disse...

HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA
Ai, não tem nada melhor que recorrer ao velho truque de esconder a cabeça por baixo do edredom neh Carlírio? ^_^Obrigado.

Concordo Dejitaru, é bem assim eu pensei ao assistir.

Verdade Jonh, é sempre legal assistir com um olhar crítico e não apenas por "isso" ou "aquilo", fechando os olhos para o restante da obra.

Biiahh, olha ai um link legendado: (http://www.mediafire.com/?hh8x2bol2b86etm)
Como não lembro mais de onde tinha baixado, acabei upando pra uma pessoa, bom que serviu pra vc também.

junior disse...

se alguen sentir os mesmos atrativos que sente ao ver em animes hentais ou eich como H.O.TD eu classifico essa pessoa como doente mental

julio pq disse...

É realmente muito bom, esse foi o primeiro que assisti sendo um guro realmente. É bem chocante e pesado, mas acho que se alguém quer dar uma conferida no gênero, talvez esse seja a melhor escolha. No inicio eu fiquei bem desconfortavel com a animação, já que estou muito acostumado com animes novos, mas foi passando com o tempo. A Midori é sensacional. Só não entendi, o que é aquela menina sádica lá que tem um pênis,aquilo é mulher ou traveco? Mais uma vez, obrigado Roberta por mais uma indicação, acabei pegando carona no link que você postou acima :)

Roberta Caroline disse...

Obrigado Júlio. Então, ela é um garota mesmo hehehe. Mas uma garota que tem pinto hehe, ah vá, vai dizer que não sabe dessas personagens femininas que também tem pinto? Tem um nome, mas no momento eu não consigo me lembrar. ^___^

Anônimo disse...

Garotas com pinto = FUTANARI

Rei Ayanami disse...

Você é mesmo muito curiosa, gosta tanto de coisas kawaii's como de coisas tenebrosas.O que me incentivou a assistir, é o fato de ter algo a mais, que da pra sentir na história. Assistir só pra ver sangue jorrar também não faz meu estilo.

Danilo disse...

É dificil achar quem goste desses gêneros "perversos" onde a mensagem é passada da forma mais chocante possivel. Penso que todas as vezes que voltamos destes "universos de dor" que histórias como esta nos trazem, voltamos mais fortes e concientes dos problemas humanos. Roberta, quem sabe uns textos sobre as obras do Hideshi Hino? Panorama do inferno ou um dos seus Guinea Pig? Elas caminham bem por esse caminho.

Roberta Caroline disse...

Woaah, ótima sugestão, tanto Guinea Pig quanto Panorama do inferno dariam ótimos posts. Com certeza falarei destes e outros por aqui, obrigado pela sugestão ;)

E Ayanami Rei, também penso assim e realmente gosto de muitas coisas viu, tanto coloridas quanto sombrios heheheeh.

Margoth disse...

maneiro, indique mais animes nesse estilo

Roberta Caroline disse...

Woaah, ótima sugestão, tanto Guinea Pig quanto Panorama do inferno dariam ótimos posts. Com certeza falarei destes e outros por aqui, obrigado pela sugestão ;)

E Ayanami Rei, também penso assim e realmente gosto de muitas coisas viu, tanto coloridas quanto sombrios heheheeh.

- biiαhђ« disse...

não to achando =/
favor ajuda; rs

Carlírio Neto disse...

Saudações


Se por um acaso eu não conseguir dormir, a culpa será desta sua postagem, ok?

Brincadeiras à parte, este texto tem a sua marca registrada, Roberta.

Particularmente, eu não iria conseguir assistir a tal obra. Mas estarei mentindo se não escrever que a leitura desta postagem não atiçou uma certa curiosidade em mim...

Mas a imagem das ratazanas... Mundo cruel...

Parabéns por mais um ótimo texto.

Até mais!

Roberta Caroline disse...

Obrigado Júlio. Então, ela é um garota mesmo hehehe. Mas uma garota que tem pinto hehe, ah vá, vai dizer que não sabe dessas personagens femininas que também tem pinto? Tem um nome, mas no momento eu não consigo me lembrar. ^___^

Margoth disse...

maneiro, indique mais animes nesse estilo

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